Um ciclo interminável de más notícias: surto da síndrome mão-pé-boca

Artigo da Dra. Isabel Cristina Gonçalves Oceanóloga, Mestre e Doutora em Educação Ambiental. Pós-doutorado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) no projeto: "Mudanças climáticas globais e impactos na zona costeira: modelos, indicadores, obras civis e fatores de mitigação/adaptação - REDELITORAL NORTE SP" & KAOSA ONG

Passados três meses e cinco dias de 2018, Adamantina já coleciona: a perda das bolsas de estudo da UniFAI, que até então era direito dos funcionários públicos da prefeitura; prefeitura multada, por não cumprir ordem judicial que determinava o piso salarial dos agentes comunitários de saúde; a nomeação de dois parentes diretos do prefeito para ocuparem cargos de direção na UniFAI; a revolta dos alunos de medicina contra a nomeação e demissão de diretores; a tentativa de doar uma quadra pública de esportes para a UniFai; a devolução de 1 milhão e 800 mil com a desistência da UPA; o Termo de Ajustamento de Conduta determinado pelo Ministério Público para que a prefeitura deixe de inação e atue para mitigar o gravíssimo problema dos escorpiões; o erro colossal no geoprocessamento que determinou os novos valores do IPTU; a prefeitura multado pela supressão, não autorizada, de 31 árvores nativas. Além dos problemas recorrentes: buracos nas ruas, áreas públicas sem manutenção, sistema de saúde sucateado, falta de creches, entre tantos outros.

E como se vivêssemos em um ciclo interminável de más notícias fomos surpreendidos por um surto da síndrome mão-pé-boca, até então desconhecida por muitos de nós. Soubemos que essa doença pode evoluir para meningite, e aprendemos um pouco mais sobre os seus sintomas, contágio, cuidados e tratamento. Mas não antes da morte de um menino de um pouco mais de um ano, e de saber que aproximadamente 100 crianças na cidade estão doentes, segundo reportagem da TV Fronteira.  Por que apenas agora, com um surto instalado, soubemos sobre o problema? Fomos surpreendidos, mas as autoridades responsáveis pela saúde pública do município não podem, em hipótese alguma, alegar surpresa.

A população deveria ter sido informada assim que os primeiros casos foram conhecidos, e grupos de ação deveriam ter sido constituídos para informar a comunidade e trabalhar de forma intensiva – devido ao auto grau de contágio -,  junto às creches e famílias visando evitar um surto.

É nítida a incapacidade, infelizmente recorrente, da prefeitura de se comunicar com a população. Quanto menos informação, mais caótica é a reação da sociedade. Imaginem a situação das mães que precisam trabalhar, mas estão assustadas e não querem levar seus filhos para as creches, mas não tem com quem deixar as crianças.

A informação contextualizada, com conteúdo e sincera faz com que a sociedade compreenda o problema, e assim, que vivencie e participe da solução. Mas escamotear, ou mesmo não informar com contexto no início do problema, apenas intensifica o caos, ativa boatos, gerando mais problemas. Por que o secretário de saúde não apareceu para dar informações, ontem mesmo, quando a causa da morte das crianças foi revelada, ou mesmo quando da origem do surto da síndrome mão-pé-boca, que acometeu crianças de uma creche? Se tivessem informado a população sobre o problema, e ensinado como preveni-lo, talvez não estivéssemos vivendo um surto.

O secretário de saúde é o responsável pela saúde da cidade, logo, e é ele quem deve aparecer para dar explicações sobre o que realmente está acontecendo - assim, acalmar a comunidade -, e informar sobre as providências que a secretaria da saúde, sob sua responsabilidade, está tomando para solucionar o problema.

Agentes públicos precisam se posicionar e se responsabilizar pela busca de soluções, e encabeçar as frentes das ações. As diretoras das creches e professoras precisam de toda ajuda, e do respaldo das autoridades responsáveis. Prefeito, Secretário da Educação, Secretário de Saúde precisam ser os porta-vozes, as lideranças, arregaçar as mangas e mostrar as ações que estão sendo desenvolvidas, e garantir que as creches são seguras, na realidade se responsabilizar pela segurança das creches e escolas, é o mínimo que nossa sociedade espera das autoridades responsáveis.

É fundamental que haja transparência e publicidade das ações dos agentes públicos para que a população fique a par das ações desenvolvidas. Precisamos de políticas públicas, de mudanças estruturais, de inteligência, de inovação e isso só será possível se a mentalidade dos agentes públicos, e as formas de administração do que é público mudarem. É tempo de mudar!

Para mudarmos este triste cenário de nossa cidade é fundamental que o prefeito compreenda o valor e importância de criar e implementar políticas públicas, que tenha consciência da importância e responsabilidade de formar um secretariado de excelência, que compreenda o que é sustentabilidade, que tenha como prioridade a implementação de políticas de seguridade social, de constituir uma cidade mais humana, moderna, do fomento da educação de base e da saúde preventiva, de inovação, e que esteja determinado a mexer nas estruturas carcomidas da cidade para tirara-la do atraso em que se meteu.