“Tudo em nós é mortal, menos os bens do espírito e da inteligência”. (Ovidio)

É madrugada. Apesar do cansaço não consigo dormir. Algumas vozes chamam a minha atenção. A princípio penso que é gente conversando na rua e não dou muita importância. Passa o tempo, o rumor aumenta e começa a me incomodar. Resolvo falar com as pessoas. Pra isso sei que tenho de enfrentar o vento gelado.

Por alguns minutos fico indeciso. Depois crio coragem para desafiar o frio e as pessoas que não param de falar, ainda que mansamente e num tom agradável. Mas não consigo me levantar da cama. Parece que meu corpo pesa toneladas. As vozes ficam mais altas. Elas não me parecem estranhas. Talvez eu conheça quem faz todo esse barulho em hora tão imprópria…

De repente, me vejo iluminado por um intenso facho de luz. Noto então que não estou no meu quarto, e sim num leito de hospital. Dois enfermeiros chegam perto e me examinam. “Ele está mal”, diz um deles, ainda tomando meu pulso. “Acho que não amanhece…”, emenda o outro.

Novamente ouço vozes conhecidas, e novamente tento reconhecê-las. Aos pés da cama vejo amigos que há muito tempo deixaram o mundo dos vivos conversando. Então, finalmente, começo a entender o que está acontecendo.

Faço um enorme esforço e consigo me levantar. Os enfermeiros parecem não notar que não estou mais de cama. Dirijo-me aos amigos de outrora e os cumprimento. Eles estão muito felizes com o nosso reencontro.

Sem dizer nada, tomo o rumo da porta. Quero ir para casa. Antes de sair, olho para trás e vejo os enfermeiros cobrirem um corpo com um lençol branco, enquanto os companheiros dos velhos tempos fazem o sinal da cruz e rezam baixinho.

Sigo lentamente para longe de todos. As árvores balançando ao vento dão um singelo encantamento à paisagem. Ao olhar para cima, vejo a lua e as estrelas, quietas, cada uma em seu lugar, só que com um brilho que eu nunca tinha visto. Está muito frio, mas não sinto nenhum desconforto; sei que não é sonho, mas não tenho medo, tudo é leve e sereno; pareço levitar… Olho para mim e não me vejo… Aí me recordo das palavras de um velho poeta: “Todos podem tirar a vida do outro, ninguém pode tirar a morte de ninguém.”

Obs: escrevi este texto em maio de 2009, com o objetivo de mostrar o quanto é tênue a linha entre a vida e a morte. Viva a comunidade espírita adamantinense! Viva a família Chapecoense!