Se, em alguns casos, a dupla personalidade é um distúrbio mental, em outros pode não passar de um truque para esconder a verdadeira identidade. Hitler é um exemplo do primeiro caso: o maior assassino da história, em criança, adorava pintar singelas paisagens. Já exemplos do segundo caso, os maus políticos oferecem em quantidade. Como se sabe, muitos desses “amigos do povo, da ética e da justiça social” escondem suas fraquezas e seus maquiavélicos planos atrás de belos discursos. Felizmente, na maioria das vezes esses impostores são desmascarados.

Deixando de lado os políticos e seus truques mirabolantes, até porque ainda estou na quarentena sugerida pelos companheiros de partido, vamos ao mais famoso caso de dupla personalidade ocorrido no Brasil. Conta-se que Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, só entrou no mundo do crime por causa do assassinato do pai. E que, depois de vingá-lo, tomou gosto pelo cheiro da pólvora e pelo sangue, de tal forma, que em pouco tempo, tornou-se líder do maior bando de cangaceiros que já se conheceu.

Mas, o que poucos sabem é que, segundo algumas pessoas, Lampião, mesmo antes de virar criminoso, já tinha costumes corajosos para sua época: cultivava flores da caatinga e remendava as roupas dos irmãos; coisas que não deixou de fazer depois, nos momentos de folga, entre um tiroteio e outro.

E como desgraça (ou calúnia) pouca é bobagem, também se fala que o rei do cangaço teve um caso amoroso com seu lugar-tenente, um loiro de olhos azuis, descendente de holandeses, que tinha o apelido de Corisco. E que o chapéu quebrado na testa, marca registrada de Lampião, ganhou esse formato de tanto o cangaceiro encostar a cabeça nas rochas do sertão, para facilitar a vida do companheiro.

Não se sabe ao certo se isso é verdade, mas de uma coisa não podemos duvidar, o moço de costumes delicados só se transformou no mais cruel cangaceiro movido pelo sentimento de vingança. E pela dupla personalidade.

Notas

  • Publiquei este texto pela primeira vez em 25 de setembro de 2003. Hoje, quase 13 anos depois, percebo que o número das pessoas acometidas pelo mal da dupla personalidade aumentou assustadoramente em nossa cidade. Pior, se antes os cidadãos de dupla personalidade se concentravam no mundo da política, agora eles vão além dessa amada classe e também estão entre os nossos queridos pseudointelectuais
  • Não é difícil descobrir que pessoas que sempre admiramos pelo caráter ilibado, são na verdade seres medrosos que se deixam levar pelo discurso artificial daqueles cujos atos sempre condenaram. No entanto, como diria Sérgio Barbosa, mais cedo ou mais tarde esses nossos amigos irão conhecer o outro lado de uma moeda sem lado. Ou ainda, poderão ter o chapéu quebrado na testa por um acaso qualquer…