Numa época em que a mídia mais parece um socador de um monjolo, batendo sempre num mesmo ponto, nada melhor que contrapor a mesmice com um detalhe desses que a vida oferece de vez em quando.

O fato se deu há poucos meses, aqui mesmo em Adamantina. Ele começa quando um garoto vai à Polícia Ambiental com um beija-flor muito machucado pedir ao sargento Pedro Luiz e aos demais policiais da corporação que o salvassem.

Como não poderia deixar de ser, primeiro os militares ficaram impressionados com a nobre atitude do garoto, e se lamentaram intimamente pela falta de uma clinica de animais silvestres na região. Em seguida, caíram na fria realidade: o que fazer? O passarinho estava muito mal, mas sabiam que não poderiam decepcionar uma criança.

Nisso, chegou um velho conhecido, com seu jeitão peculiar, daqueles agraciados por Deus com um poder especial. – Pode deixar que eu cuido do bichinho! – disse o recém-chegado, depois de uma breve análise nas condições do passarinho. As palavras soaram como um desafio. Como um rude borracheiro, com as mãos cheias de calos, poderia curar um delicado filhote de beija-flor?…

Na dúvida, e também porque não havia outra opção, os policiais entregaram a sorte do filhote aos cuidados do amigo, que por coincidência, estava se recuperando de graves problemas de saúde. Então, como sempre faz, o borracheiro saiu assobiando, levando entre as mãos o pequeno moribundo.

No dia seguinte, o sargento e um colega decidiram visitar o velho conhecido para ver como estava a ave. Conversa vai, conversa vem, até que o borracheiro resolve facilitar as coisas: – vocês vieram aqui pra saber como tá o passarinho, não é?

Para surpresa dos militares, o velho amigo mostrou o ninho que fizera perto de uma lâmpada bem fraca, que reproduzia o calor típico do abrigo natural da ave. – Tô alimentando ele com mel. O mesmo mel que esses bichinhos tiram das flores… – explicou o borracheiro. Pelo que se podia ver, o método dele estava indo bem: o passarinho não tinha mais aquele aspecto largado de quem desistira da vida, e já entreabria os olhos.

Tempos depois, o sargento fez uma nova visita ao borracheiro. Como não via a ave no ninho, perguntou por ela. O amigo riu, pegou uma latinha e nela bateu com um pedaço de pau: de repente, num voo gracioso, surge um belo e saudável beija-flor, que serenamente pousa no seu ombro.

O policial, então, conclui que o caso tinha terminado da melhor maneira possível: o borracheiro não só salvara o passarinho como também ganhara um novo companheiro.

E assim chega ao fim essa historia real, com personagens reais, que fala da inocência da criança, da preocupação da Policia Ambiental com os animais, da natureza que faz milagres e sobretudo de um admirável contraste: o de um homem do serviço rude que também sabe cuidar das coisas frágeis.

Com tudo que o episódio tem de encantador, não deixa de ser apenas mais uma forma de demonstrar que a sensibilidade é um dom das pessoas, que não leva em conta profissão, credo, ideologia política ou esmero intelectual; ou seja, que não é monopólio de ninguém, e não precisa, necessariamente, ser aprendida na academia.       

Nota 1

Dedico este texto aos seus principais protagonistas: Joaquim (Baiano Borracheiro) Carvalho dos Santos, Pedro Luiz dos Santos e, claro, ao hoje cidadão que quando criança agiu com muita sabedoria diante de uma situação difícil. Detalhe: este artigo foi publicado pela primeira vez em 19 de abril de 2003, quando ainda existia um posto da Policia Ambiental em Adamantina.          

Nota 2

A primeira coisa que devemos fazer para tentar mudar os costumes de uma sociedade é conhecê-la. A frase não é minha, mas sei bem o seu significado. Por isso, resolvi trazer de volta alguns textos que escrevi há mais de uma década e que fazem parte do meu primeiro livro, a coletânea de artigos Ninguém consegue deter a primavera, de 2004. Semana que vem tem mais.