“Eu não acompanhei nada desse patético espetáculo que foi o ‘impeachment tabajara’ (…) mais patética ainda foi a primeira entrevista de Temer. O homem parece acreditar piamente que terá o respeito e a estima dos brasileiros. Engana-se.” – Joaquim Barbosa, ex-presidente do STF.

Nesta altura do campeonato o que tenho a dizer pode não significar muita coisa, mas se existia alguma dúvida sobre a diferença de caráter do decorativo Temer e da ex-presidente Dilma, acredito que essa dúvida terminou com alguns fatos ocorridos antes do ato final no circo do impeachment. Recordemos parte deles.

Na abertura da Copa do Mundo, Dilma foi vitima da intolerância da conservadora elite paulistana que, numa desrespeitosa manifestação, em coro, chegou a mandá-la tomar naquele lugar. Mesmo assim, no encerramento do evento, lá estava ela cumprindo com a sua obrigação de presidente na tribuna de honra.

Na abertura da Olimpíada, a assessoria do então interino Temer, além de proibir a entrada de cartazes contrários ao golpe no Maracanã, resumiu o discurso presidencial para alguns segundos, achando que assim evitaria que ele fosse vaiado pelos torcedores. No entanto, foi só o nome do homem ser anunciado para uma ensurdecedora vaia ecoar no estádio.

Com medo de novas manifestações, Temer não compareceu ao encerramento dos Jogos Olímpicos. Delegou essa tarefa ao vassalo democrata Rodrigo Maia. Dessa forma, criou um tremendo mal-estar na delegação japonesa, que foi ao Rio para a passagem do bastão olímpico para Tóquio, próxima sede dos Jogos.

Por conta da fraqueza de Temer, o primeiro-ministro Shinzo Abe acabou recebido por Maia. Com isso, o protocolo diplomático que manda um chefe de estado ser recebido por outro, foi quebrado. Para piorar a situação, o desastrado golpista, numa frustrada tentativa de justificar o injustificável, enviou uma das suas famosas cartinhas à autoridade nipônica.

Em resposta ao delicado episódio, a prefeita da capital japonesa, Yorico Koike, foi discreta e disse: “não acho que esse assunto deve ser tratado por mim”. Já Temer, quando perguntado se estava fugindo das suas obrigações, como é de praxe, desconversou com a maior cara de pau do mundo: “estarei na abertura das Paraolimpíadas”.

No inicio dessa semana, enquanto Dilma entrava para a história ao enfrentar com dignidade os venais carrascos do Senado Federal, o agora presidente comprava votos de senadores indecisos e acariciava o ego dos ex-ministros traidores Cristovam Buarque, Garibaldi Alves, Eduardo Braga, Eduardo Lopes, Edison Lobão, Fernando Bezerra Coelho e Marta Suplicy. Essas são apenas algumas das muitas diferenças entre o caráter de Dilma e o de Temer.

Quanto ao documento “Ponte para o futuro”, que uniu a classe dominante contra a ex-presidente, se suas propostas saírem do papel, vai ser o caos para os milhões de brasileiros de baixa renda. Mutilar direitos sociais existentes na Constituição Federal, flexibilizar a CLT, acabar com a política de recuperação do salário mínimo, cortar recursos da Saúde e da Educação, aumentar a idade mínima da aposentadoria para 65 anos e privatizar tudo o que for possível, fazem parte do nefasto tratado.

Enfim, a “ponte” nada mais é que o jeito preferido de governar das ultrapassadas oligarquias brasileiras. Sendo assim, não preciso dizer que foi ela, a tal ponte, que levou a maioria dos senadores e inúmeras entidades patronais, entre as quais a Confederação Nacional das Industrias e a Fiesp, a apoiarem o vergonhoso golpe que conduziu Temer à presidência. Agora só nos resta aguardar (e pagar) o Pacto pela Governabilidade que está sendo negociado em Brasília e, claro, assistir o “gran finale” da Operação Lava Jato.